Sobre educação (ou a falta dela)…

Para alguns professores, ex-aluno até que existe,
mas para os alunos, não existe ex-professor!
(Já gosto dessas contradições)…

Quando eu iniciava as aulas no programa pré-vestibular Universidade para todos, sempre começava com uma variação da seguinte pergunta: para qual curso vocês vão prestar vestibular e por quê? As respostas também eram variadas e geralmente passavam por medicina e engenharia (dentre outras igualmente ou só um pouquinho menos glamorosas). Até que um dia, num pequeno município remoto do interior da Bahia, um garoto hesitou em responder, depois que seus colegas de sala falaram sobre seus grandes sonhos (ainda que aparentemente distantes de suas realidades).

Curioso que sou, insisti um pouco mais, lembrando a ele (e ao restante da turma) que às vezes, o mais importante não era o que escolher, mas sim o porquê. Então, para surpresa da turma (e minha), ele disse que queria apenas ser motorista. Toda a turma ria e enquanto ele imediatamente se arrependia de ter dado aquela sua resposta tola (para a turma), como que acertado em cheio por um raio num dia sem tempestade, eu era atravessado por mais uma dessas epifanias que me assolam em sala de aula.

Então comecei perguntado a toda turma, se eles conseguiam imaginar uma sociedade sem motoristas, uma pergunta que fez todos saírem do estado de riso para o de reflexão (eu uso e abuso desse ritual de sala de aula e nas notas finais, eu explico um pouco mais sobre ele). Eu mesmo só poderia estar ali, dando aquela aula, pela benevolência de seu Ninho (que apesar do diminutivo, era o jovem senhor de mais de 100 kg!). Continuei dizendo-lhe que (olhava para ele mas meu tom de voz dizia me dirigia para toda a turma), o que realmente parecia importar não era o cargo em si, mas a satisfação pessoal de exercê-lo e, neste momento, todos já concordavam da importância de certas profissões socialmente desprestigiadas. Do que adianta ganhar dinheiro e perder a vida (no sentido de viver bem)?

Me ocorreu também, que a profissão de motorista é de algum modo semelhante a de professor, ambos partilham a perigosa responsabilidade de “guiar” a vida de muitas pessoas ao mesmo tempo, a primeira no sentido físico e a segunda no âmbito intelectual; grandes responsabilidades afinal.

Conclui reafirmando (para eles e para mim mesmo) que a minha missão enquanto professor era a de tentar auxiliá-los (todos e independente de suas escolhas) na construção de seus sonhos e que sim, é possível encontrar o equilíbrio entre as necessidades financeiras e interesses pessoais (naquela época eu era um excelente exemplo disso); e naquele momento, arguto que me senti, até vislumbrei uma brisa de alívio passar pelo olhar daquele estudante, que justificou sua escolha por simplesmente gostar de dirigir (coisa que eu não sei mais fazer) e por ser filho de um motorista. Naquela noite, ambos nos safamos…

***

Comecei com este breve relato, porque ele me parece ilustrar bem o pensamento geral que temos quando nos referimos a esta ideia vaga que identificamos como educação e seus objetivos (a mesma que eu mesmo já tive antes de entrar em campo): mais ou menos aquela unicamente formal, que só pode acontecer no espaço de sala de aula e só pode “formar” profissionais para profissões de prestígio social. Lembrando (de não esquecer) o fato que esta mesma educação está em eterna crise e que ser professor é uma atividade sem futuro (logo no Brasil, o país do futuro?)…

Quando penso a respeito da minha profissão (que não encaro como trabalho, apesar de ser uma atividade laboriosa), sempre me vem em mente (outra) a contradição inerente a ela: ao mesmo tempo em que se reconhece a importância do professor (todas as demais profissões são tocadas pela docência), ao mesmo tempo se reconhece o seu desprestígio social. Como resolver este dilema? (É uma pergunta retórica claro, como professor ciente dos rituais de sala de aula, nunca me propus a respondê-la seriamente).

Eu me faço de surdo quando escuto alguém de fora da educação falar mal desta (e é curioso como muitos de fora falam com um assombroso conhecimento de causa, inversamente proporcional ao não atrevimento de dar pitacos em outras, pois ninguém questiona a receita que o médico passa, só para citar um exemplo…). Mas quando escuto (calado, porque calado ainda estou errado, segundo minha avó) colegas de profissão repetindo a mesma ladainha sobre toooooooooo-dos os problemas da educação no Brasil, uma imagem me vem a mente (e me ajuda a continuar calado): somos como pequenos vermes se debatendo para sobreviver dentro da barriga de um grande monstro que, ao mesmo tempo que nos aprisiona, nos alimenta! Se fomos vomitados (ou expelidos daquela outra forma, vocês sabem…) deste mostro, morremos! Se matamos o monstro a partir de dentro, comendo mais do que ele nos dá ou permite, morremos também. Como resolver mais este dilema? (É uma pergunta retórica claro…)

Apesar deste tema me ser caro, eu vou parar por aqui (para não escrever uma coleção com sete tomos sobre o assunto, já que escrevi, mas ainda não publiquei um ensaio sobre) e finalizo com o que ainda venho aprendendo na escola da vida: geralmente, nós podemos atomizar os problemas para se tornarem únicos (e digeríveis), mas as suas soluções, estas serão sempre diversas (e isso é ao mesmo tempo bom e ao mesmo tempo, aparentemente não percebido)! Em outras palavras, os problemas sempre vão existir (e em geral eles são criados por nós mesmos); fazer eco a estes não os resolvem. Por isso, também cabe a nós mesmos (ao menos tentar) pensar estratégias para solucioná-los, fazer parte das possíveis soluções.

Uma das coisas que me agradam na docência são justamente estas incertezas (inerentes a natureza humana, porque lidamos com pessoas), que me obrigam a toda aula pensar em soluções específicas para cada situação, porque uma aula nunca é igual a outra, a despeito de nossa forte ilusão de controle sobre os conteúdos e outras variáveis aparentemente constantes. Às vezes eu acerto, às vezes eu erro! Mas nunca esqueço de lembrar que apesar do erro ser recriminado, ele também é face, assim como o acerto, desta mesma moeda chamada aprendizado; e por isso, apesar de não ser ideal, também tem o seu valor. Apelando para o filósofo, minha única certeza é que não possuo certezas, clichê aparentemente simples, mas reconhecidamente estimulante e sinceramente libertador.

E me parece que enquanto professor, nós temos basicamente duas opções, sucumbir ou nos rebelar contra aquele mostro que nos aprisiona (em nossas próprias mentes). Na sala de aula, ciente da grande responsabilidade, eu tento manter sempre desperta a consciência dessa nossa condição, a fim de promover o autodidatismo, o aprender a aprender, como sugerem Morin e Piaget (mas aquela autonomia que não deve ser confunda com a ilusão da independência, pois todos precisamos de todos) e ajudar a refletir sobre formas de conciliar nossos desejos pessoais e nossas (co)responsabilidades coletivas na construção conjunta de nossos sonhos.

Lendo assim, tudo pode parecer muito utópico, mas meu relato inicial foi só um dos exemplos concretos de que não devemos deixar de perseguir este horizonte. E (re)lembrando, pode parecer pretensioso de minha parte, mas todos os meus sucessos (como escrever razoavelmente bem e ser um professor reconhecido como razoável por meus estudantes, por exemplo), só são possíveis porque outras pessoas me ajudaram (e ainda me ajudam); pois sozinhos não somos nada. E meu esforço para fazer melhor, também é uma forma de gratidão a todas essas pessoas que me ajudaram a chegar aqui.

Nota 1. O ritual de sala de aula envolve alguns comportamentos específicos deste espaço, como no exemplo citado, o fato de lançar uma questão (independente de sua possibilidade de resolução) apenas para condicionar os estudantes ao reflexo de tentar respondê-las, uma vez que, por muito anos, nós fomos formatados neste esquema de estímulo resposta; como bem explica a teoria behaviorista.

Nota 2. Eu disse benevolência quando me referia ao motorista, porque a estrada que liga Aramari até o município de Ouriçanguinhas é tão, mais tão cheio de crateras, que se você tentar levar um ovo cru estalado dentro de um prato neste percurso, quando chegar no destino você terá já um belo omelete, sem ter precisado usar um batedor uma única vez (além do esgotamento muscular garantido); e seu Ninho era o único disposto a colocar seu carro a prova naquele queijo suíço que insistem em chamar de estrada.

Nota 3. Em Alagoinhas há um motorista, que rodava na linha (…), tão excelente, mas tão excelente, do tipo que dava carona e tinha o cuidado de esperava os velhinhos se sentarem para só então, começar a dirigir. Se você ainda não acredita que este tipo de pessoa / profissional existe, saiba que este motorista deixou de rodar na referida linha porque a empresa o obrigou a restringir o acesso dos idosos ao limite de quatro assentos, coisa que ele, humanamente se recusou a fazer. Eu me sentira honrando de ter sido o professor dele.

Para a excelente professora Thais Thalyta.