Sobre o medo…

por Jackson S de Jesus

sinistroTem coisas na vida que não mudam. Sempre fui medroso, e a muito já havia desistido de tentar entender o porquê, suspeitava que a compreensão não me ajudaria a deixar de sentir medo. Mas um dia soube que medo era reação natural a algum perigo iminente, então descobri que além de medroso eu era também ansioso; tinha medo de tudo e me preocupava com tudo…

Porém, outro dia também tive que lidar com um medo, e dos grandes, verdadeira reação natural ao perigo iminente: entre mim e o caminho de casa havia um cão feroz de meio metro de altura (há controvérsias sobre este dado)! O fato dele ter olhado de volta para mim só porque eu olhei para ele ao dobrar a esquina, o fato do caminho ser sombrio e a já ser bem tarde da noite complementavam o frio na barriga e a paralisia nas pernas…

Primeira reação (a ideal): voltar (e correndo como um louco, de preferência)! Segunda reação (a real): sentir a alma abandonar meu corpo paralisado, a despeito das batidas fortes do meu coração (já na boca). Mas alguma decisão deveria ser adotada…

Pela primeira vez decidi enfrentar (suspeito que não tive escolha). Respirei profundamente. E junto com essa força de respiração soltei a tensão do corpo. O cão farejava o meu medo, mas segui em frente, ele parado, eu passo a passo, ele esperando, eu cada vez mas rígido e ao mesmo tempo cada vez mais decidido, até passar bem perto, tanto, a ponto de sentir seu frio focinho cheirar minha gelada mão com um toque: tensão total. Mas passei, sem olhar para trás, segui meu caminho até a segurança de meu lar (ainda bem que a bexiga estava vazia)…

Depois daquele dia aprendi que ter medo é bom, porque só tem coragem quem tem medo, o medo que deve ser enfrentado para depois virar coragem. Aprendi que a coragem surge da mudança de postura, do primeiro passo, da assunção do risco. Eu sabia que poderia levar uma bela mordida, mas assumi o risco na esperança do contrário, o que se concretizou.

Hoje os medos são outros, nenhum digno de ser aqui descrito. E o fato é que tem coisas na vida que não mudam, já outras (para nossa sorte)…

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