escuta

Não sei se perceberam, mas todos os títulos dos posts do Meiotexto começam com a palavra sobre: sobre isso, sobre aquilo… Não sei porque comecei assim, mas quando percebi já era tarde. O fato é que este foi um dos motivos para eu escolher publicar aqui, este texto de Rubem Alves: Sobre ouvir, extraído do livro (presente de minha amiga Fernanda) Ostra feliz não faz pérola. O outro motivo só vai saber quem se permitir ler o texto, mas não com olhos de olhar de sempre, antes, com olhos de sentir…

O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado. Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parênteses, ainda que provisoriamente, as nossa opiniões. Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade. A prova disso está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”.

Pequena observação sobre o presente de minha amiga Fernanda: assim como dito de uma célebre obra de René Magritte, ceci ce n’est pas un livre, antes é algo mais (um raio talvez) que transpassa (e marca) o espírito humano, uma forma de telepatia de sentimentos… e se eu tivesse que pagar… jamais poderia, não com a nossa noção ordinária de pagamento, por isso só escrevo: obrigado!

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