Quando eu era pequeno, chorava (copiosamente) todas as vezes em que meu pai saia para trabalhar, não havia como explicar para os adultos daquela época que eu achava que ele nunca mais ia voltar. Meu choro não era a toa, eu sabia que minha mãe já tinha ido (talvez por isso achasse que todo mundo ia embora também). O curioso é que quando eu saia com meu pai, via no olhar das pessoas que me observavam, alguma coisa que não sabia explicar (naquele tempo). Alguma coisa que dizia mais ou menos assim: mmm, esse é aquele menino que a outra (minha mãe) deixou… Eu me olhava no espelho para tentar ver o que eles viam (deveria ser uma marca), mas eu não enxergava nada! Devia ser uma marca invisível então, imaginava. A marca de Caim…

Já quando eu era jovem, feliz e bobo (já não me sinto tão jovem, um pouco feliz às vezes, mas bobo, rs…), tive a chance de ter três grandes amigos, aqules amigos de coração, sabe. Mas digo tive porque já não tenho mais. Fiz o grande favor de perdê-los (idiotice mesmo). Já falei sobre eles antes, porque este fato marcou meu espírito, profundamente. Eu estava prestes a ser deportado de uma cidade a outra (contra minha vontade) e sabendo desse incontornável destino, marcamos um último encontro juntos; sair para aproveitar o tempo que restava. Mas enquanto meu corpo os seguia (pois minha cabeça não estava lá), eu não me conformava de jeito nenhum com aquela situação! Então parei no meio do caminho. Meus amigos me olharam (descontraídos que estavam a minha frente) e me perguntaram porque eu havia parado. Eu não conseguia pensar em nada honesto para dizer naquele hora (tinha um caroço na minha garganta que por um fio segurava todo um mar de revolta na minha cabeça), então resmunguei alguma coisa sobre voltar. Eles não me acreditaram. Mas eu voltei, assim mesmo. Foi a última vez que os vi (incrédulos com a minha inexplicável decisão [estupidez]), e esta imagem não sai de minha retina. Nunca mais tive notícias deles (nem pelas redes sociais). Às vezes me pergunto se realmente existiram. Perdi a oportunidade de aproveitar aquele último momento porque sofri por antecedência, não aceitava a despedida e acabei deixando escapar aquela que poderia ser hoje, a melhor lembrança de meus amigos. Se pudesse voltar atrás…

Escrevo tudo isso porque eu tinha uma amiga, muito bonita, mas legal. Uso esta antítese porque é difícil encontrar uma pessoa assim, linda e ótima ao mesmo tempo. Mas para não dizer que ela era perfeita (e quem seria…), ela era chata, muito chata mesmo, (chata pra carvalho! Quase o cúmulo da chatice!). Porém, até a chatice dela era legal. Eu gostava muito dessa amiga, mas ela não fala mais comigo depois que confessei (sem pensar) que eu podia até namorar com ela (se ela quisesse é claro). Eu não era apaixonado por ela, mas seria fácil ser… Resultado: nunca mais ela falou comigo! Acho que ela não acreditou que meu respeito e adimiração por ela era maior do que meu desejo (talvez mesquinho, de eterno contato). E agora estou aqui, sem aquela amizade que um dia eu fiz e tanto prezava. Se pudesse voltar atrás…

Também já me aconteceu o contrário, de ter uma amiga que dizia gostar tanto de mim (e eu também gostava tanto dela), que parecia insuportável compartilhar minha presença na condição de amigo. Eu dizia que tudo era passageiro, que o contato ajudaria na desconstrução do sentimento, afinal eu era (e ainda sou) incrívelmente chato e tenho péssimos hábitos também. Mas não adiantou, assim como eu fiz com meus amigos, ela também fez comigo, e se foi. Se pudesse voltar atrás…

Pensando, pensando, já fui isolado porque não sou evangélico, porque já fui católico, porque uso unix, porque convivo com gatos e cachorros, até já me negaram a oportunidade de falar e tentaram me expulsar de lugares porque eu não tinha a aparência “adequada”, (acho que foi a barba, rs). Já fui mesmo até deixado para trás porque sou financeiramente miserável (melhor parar por aqui porque a lista é grande, rs)… Partes de mim que ficaram pelo caminho destes pequenos banimentos diários (um nome triste, mas excelente para um livro). Acho que todos já passamos por isso…

Então suspeito que compreendo (um pouco) porque dizem que o banimento é uma das piores formas de punição (até mesmo mais que a própria morte [como em Romeu e Julieta]… não é pela ausência que sofremos?). O que fazer longe das pessoas que a gente ama? Hoje sei (suponho apenas) que uma parte da gente também se vai (ou se perde…) na ausência (cruel) do banimento (seja este intencional ou não), e o que fica (ou sobra…) é uma parte que nos ajuda a continuar (mas não aquela antes da ausência). Parece que nascemos sós e morremos sós, mas neste breve intervalo de tempo, entre um extremo e outro, existe essa coisa boba (e boa) que a gente chama (e desperdiça) de vida. E não dá para voltar atrás…

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Um comentário sobre “Sobre banimentos…

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