Faz tempo que não converso (assim na rua) com pessoas desconhecidas (exceto algumas aparentemente loucas, suspeito que devo ter algum tipo de imã para com estas, talvez seja verdade o que dizem sobre os iguais se reconhecerem…), como se fazia antigamente em tempos de paz; sabe quando se puxa conversa na fila do banco ou no ponto de ônibus? Mais ou menos isso. Dizem que os homens geralmente confiam uns nos outros, como meninos que confiam em outros meninos (com sinceridade). Mas hoje todos desconfiam de todos, e poucos se arriscam, sequer a conversar mais…

Um dia desses estava descendo uma escada, uma destas bem altas e estreitas que ligam uma pista de cima a outra pista abaixo de um viaduto (na verdade, é aquela mesmo do viaduto em Alagoinhas que vai pra Feira, rs), e pra minha surpresa, no meio do caminho havia um homem. E na minha cabeça, petulantemente sentando no meio do “meu” caminho. Sem noção! Pensei. Tanto lugar pra sentar e este sujeito para bem no meio do “meu” caminho (que saco!). E lá vai eu descendo arrogância abaixo… Mas, no meio do caminho havia aquele homem (também) arrogantemente sentado (na minha cabeça é claro), e eu precisava passar. Então, me pintei com meu melhor verniz de civilidade e, fria e educadamente, pedi licença àquele sujeito que ousava empatar o “meu” caminho (mobilizei toda a minha noção de paz contra aquela desarmoniosa conspiração do universo sentada bem ali na minha frente).

Então, aconteceu d’eu ousar dar uma lição de moral com um olhar intimidador (como quem diz: se liga moço! Tá vendo que aí não é lugar de sentar!), mas aí eu enxerguei o que sequer imaginei ver: recebi de volta (de solapo) o olhar da consciência (grave). Percebi que o sujeito em questão estava com aparências de se sentir mal (cansaço talvez, especulei), provavelmente coração (porque o meu doeu piedosamente). Então me arrependi (ah como me arrependi). Remorso vertiginoso, como tiro a queima roupa. Fui imediatamente despido de minha arrogante ira. Como eu pude julgar mal (e condenar sumariamente) um cara que sentou no meio do caminho (que a esta altura já não era mais “meu”), porque aparentemente se sentia mal e precisava respirar um pouco ou um pouco descansar?

Eu havia pedido licença (com raiva), e em troca recebi uma mão tão forte e amiga quanto a muito não recebia. Desconcerto total. O (miserável, porque fiquei com raiva de mim mesmo) homem me estendeu a sua mão num simples ato de pura bondade e, apesar de seu aparente estado físico debilitado, segurou a minha firmemente com uma nobreza inquestionável e a consciência de alguém que oferece ajuda a alguém que precisa de ajuda. Tiro de misericórdia no meu arrogante prejulgamento (a essa altura eu já media meio metro e diminuía a cada passo)…

Agradeci como quem pede desculpas (e acreditei sentir o perdão no seu aperto de sua mão), mas envergonhado comigo mesmo, continuei minha descida (agora carregando um saco pesado, cheio de culpa) tão desorientado que nem mesmo me ocorreu de pensar em perguntar se ele realmente precisava de ajuda. Talvez até precisasse, de uma ajuda física, talvez… Mas eu com certeza precisava de outra: uma de consciência (e paciência)… Escorreguei (mais uma vez) na ilusão das aparências…

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