“Era no entardecer de” uma segunda “de abril. Depois de uma semana de muito trabalho, eu estava” pensando na vida em algum lugar de Alagoinhas. “Estava com” Carol, “que tinha me ajudado com santa paciência em minhas voltas e reviravoltas” de desorganização financeira…

“Eu me sentia bem mas, sem saber por que, meio triste.”

***

É mais ou menos assim que Galeano escreve na crônica A última cerveja de Caldwell, relatanto sobre seu presentimento da partida deste autor. Mas diferente dele, Galeano, eu não presenti nada hoje a tarde, quando soube da sua “inelegante partida” (segundo minha amiga Elis). Talvez por isso a vertigem de abismo tenha sido mais forte. Sentimento de ausência por saber que agora, quando conversar (lendo seus textos) com meu (também) amigo sentipensador, ele não mais estará aqui, no mundo ao avesso…

Eu me sentia bem, mas agora sei porque, meio triste.

A última cerveja de Caldwell

Era no entardecer de um domingo de abril. Depois de uma semana de muito trabalho, eu estava bebendo cerveja nuna taverna de Amsterdam. Estava com Annelies, que tinha me ajudado com santa paciência em minhas voltas e reviravoltas pela Holanda.

Eu me sentia bem mas, sem saber por que, meio triste.

E comecei a falar dos livros de Erskine Caldwell.

Começou com uma piada boba. Como minhas incessantes viagens ao banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da cerveja conduz ao banheiro da mesma forma que o caminho do tabaco leva ao cinzeiro, e me senti muito arguto. Mas Annelies, que não tinha lido O caminho do tabaco, nem sorriu. Então expliquei a piada, que é a pior coisa que se pode fazer em qualquer circunstância, e foi assim que comecei a falar de Caldwell e de seus espantalhos do sul dos Estados Unidos; e não consegui mais parar.

Fazia mais de vinte anos que eu não falava dele. Eu não falava de Caldwell desde os tempos em que me encontrava com Horacio Petit, nas cafeterias e nos botequins de Montevidéu, e com ele andava vinhos e livros.

Agora, enquanto falava, enquanto aquela torrente incessante brotava de minha boca, eu via Caldwell, via Caldwell debaixo de seu esfiapado chapéu de palha, numa cadeira de balanço na varanda, feliz por causa dos ataques das ligas de moral e bons constumes e dos críticos literários, mascando fumo e ruminando novas porcarias e desventuras para seus personagens miseráveis.

E a tarde se fez noite. Não sei quanto tempo passei falando de Caldwell e tomando cerveja.

Na manhã seguinte, li a notícia nos jornais: O romancista Erskine Caldwell morreu ontem, em sua casa no sul dos Estados Unidos.

Livro dos abraços.

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Um comentário sobre “Sobre a ausência de um velho amigo…

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