estradaTenho um amigo que tem medo de viajar de carro. De vez em quando ele se pergunta se em outra vida ele morreu num acidente, para tentar entender seu medo hoje. Eu só compartilho com ele o mesmo medo. Na verdade, em meus incessantes pedidos a Deus (porque basicamente minhas orações só se resumem a agradecer e pedir), peço sempre que nem eu, nem meus conhecidos tenha uma morte estúpida ou sem sentido. Eu sei (e aceito) que a morte faz parte da vida, processo natural. Mas uma morte sem sentido… me parece anular uma vida com o mínimo de propósito.

O problema das estradas é que você não deveria depender unicamente de sua autoconfiança e habilidade em direção (apesar que muitos se iludem desta forma), pois nada disso importa se o outro, aquele que compartilha a mesma rota que você, de repente (e por n motivos) vier ao seu encontro; e infelizmente isso é comum. Controlar uma caixa metálica a 80 quilômetros por hora exige bem estar físico e mental, algo que nem sempre está ao nosso alcance ou sob nosso controle. Há também a insegurança em relação a máquina. Nós somos falhos, o que dizer das máquinas que construímos… daí meu pedido de sempre, daí meu medo de pegar a estrada.

Na época do casamento de minha irmã, eu já tinha a consciência de que a simples presença faz muita diferença para as pessoas, às vezes a gente não precisa falar nada, só a companhia da pessoa amada; e isso basta. Então, contrariando todo o meu pavor de pegar a estrada, ainda mais na companhia de meu pai (que na ocasião não era um modelo de confiança em direção), e enchendo o saco de Deus (conversando baixinho durante as quase 12 horas de viagem de Salvador a Recife), com momentos de gritos altos na minha mente aparentemente silenciosa (durante as ultrapassagens de risco), mas sempre considerando a importância da minha presença naquele evento para minha irmã, aos trancos e barrancos, e com as pernas tremendo (tanto pelo alívio quando pela posição constante), chegamos sãos e salvos ao nosso destino.

Mais tarde, antes do casamento iniciar, fui ver minha irmãzinha querida se arrumando no salão, e quando ela me viu, a saudade nos feriu como num tiro a queima roupa, a tanto tempo não a via (doeu tanto)… e sua maquiagem começou a borrar quando me viu pelo vidro que nos separava (imagino que por conta da mesma alegria e saudades que eu sentia). Nessa hora meu coração doeu duplamente por dentro (como se uma mão invisível o estrangulasse e o massageasse logo em seguida), primeiro pelo sentimento de culpa por pensar que quase (miserável me senti) decidi não estar ali, e segundo, ao contrário, pela forte alegria de justamente estar ali, naquele exato momento. Então me senti aliviado de saber que pegar aquela estrada, com todos os meus medos, valeu a pena. Estes últimos sentimentos me salvaram do primeiro.

Ps.: Na rota de Salvador para Recife, existe uma parte da estrada cercada de lado a lado por pinheiros. O cheiro é tão forte, que me senti tonto, como se a própria estrada tivesse acabado de ser lavada por um forte detergente de pinho!

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2 comentários sobre “Sobre presenças…

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