filhaUm dia desses, e sem planejar, revi uns amigos de escola, de décadas passadas… foi muito bom revê-os e rememorar velhas experiências. Mas uma coisa me fez pensar no caminho de volta para casa: todos eles tinha filhos, todos, exceto eu… Eu sempre soube que era medroso, apesar que ao mesmo tempo e de vez em quando, me sinto (inexplicavelmente) corajoso (não dizem que a coragem é o enfrentamento do medo, faces de uma mesma moeda?). Mas em relação a ter filhos (grande responsabilidade), nesta tensão entre medo e coragem, a balança parece ter pesado mais para um passo (ou dois) atrás; o medo. Minhas irmãs, mais novas do que eu e que já tem os seus (lindos por sinal), de vez em quando me alfinetam perguntando se eu já não tenho filhos por aí. Para disfarçar minha preocupação sobre isso, brinco respondendo que “não que eu saiba.” Mas apesar da brincadeira, fico pensando quais seriam os motivos (além de não ter parceira, é claro), por trás desta minha atual condição…

***

Quando meu sobrinho Pipi foi quase atropelado (num dia fatídico escapou de minha mão e correu para o meio de uma pista movimentada!), demorei alguns dias tentando superar a possível perda daquele que hoje é (e peço que continue ainda por muito tempo) a alegria de nossa casa. Logo quando chegamos, depois do grande susto, não tive forças para contar a minha mãe o que realmente havia acontecido. Eu mal conseguia parar de tremer, e mesmo que eu quisesse contar, não poderia porque havia dentro de mim um tornado de granizo com ventos de mais de 200 km/h destruindo o meu já quebrado coração…

Depois daquele inesquecível dia, passei noites sem conseguir dormir, apenas chorando descontroladamente (ainda que baixinho, para ninguém ouvir), sofrendo com a possibilidade daquela irreparável perda. E todas as manhãs eu acordava mais cansado que o dia anterior. Por talento nato e tentando sempre reunir as sobras de forças que podia, conseguia não deixar transparecer meu sofrimento, apesar de acordar com os olhos inchados e doendo; mas a cada noite, aquele sofrimento voltava mais e mais forte, como um ladrão a socar meu estômago e roubar minha paz. Eu só pensava no fim, um pensamento que eu não conseguia, de jeito nenhum naquela época, deixar abandonar meu espírito.

Até que uma noite, já cansado de tantas noites chorando e sofrendo sozinho daquele jeito, uma outra voz me veio em minha dolorida cabeça: e se ele realmente tivesse partido naquele dia? Era a pergunta que eu tentava, a todo custo, evitar nas noites anteriores. Mas nesta, já cansado, fui vencido por total falta de resistência. Então sem perceber, fui levado a um mundo onde meu sobrinho já não mais existiria, um mundo triste e cheio de dor e remorsos… foi insuportável de pensar e quase fui sugado para um abismo do qual eu não sei como eu não apenas consegui não cair, como ainda voltar sozinho.

Mas de repente, e sem eu perceber, em uma dessas noite também me veio a mente, e de uma só vez (como uma forte enxurrada), todas as boas lembranças do tempo que passamos juntos até aquele dia. E essas boas lembranças foram tantas, e tão mais fortes que os pensamentos negativos, que para minha sorte senti meu espírito inundado de uma inexplicável e exponencial alegria; como se tivesse acabado de viver novamente cada excelente momento, mas de uma forma muito mais intensa: sentia o cheiro de leite e escutava e via o som de seu riso alegre, puro e sincero de criança, junto com o bater de seu coração sobre o meu, quando o carregava no colo, gravados na minha memória através de todos os meus sentidos.

Paz.

Então finalmente, naquela noite consegui me perdoar (pois me sentia culpado pelo deslize de sua fuga). E a última voz que me veio a mente naquele última noite de tristeza e sofrimento foi: valeu a pena o tempo em que vivemos juntos, até aquele momento. E como ele ainda está entre nós, o alivio veio na forma de outro pensamento ainda mais reconfortante: ainda bem que ele está entre nós. Nesta noite também eu finalmente consegui dormir, e dormi como um morto; sem os pesadelos de antes. E na manhã seguinte, já sem olheiras e realmente descansado, havia me livrado do sentimento de culpa, tristeza e remorso; meu sobrinho continuava lá, e até hoje continua entre nós, e não há um dia em que eu não acorde e não sinta gratidão pela presença daquele que continua sendo a alegria de nossa casa; nosso presente divino.

***

Hoje eu me sinto na beira daquele mesmo abismo, que outrora quase me sugou, mas por outros motivos… E também ainda ando com um pé atrás sobre ter filhos, o mundo é tão complicado e atualmente não parece ser um bom lugar para nascer, além de outros fatores (provavelmente todos irrelevantes)… Mas não me sinto arrependido de ainda não ter seguido este caminho; “tudo no seu tempo” é um excelente ditado para consolar os atrasados. Porém, reconheço que naquele dia do reencontro, senti um pouco de inveja dos meus amigos que tem filhos que são amigos ao mesmo tempo… mas para compensar, e sem ter planejado, eu lembro que eu também tenho dois amigos, que gostaria que fossem mais do que meus filhos de coração: Teu e Gi.

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3 comentários sobre “Sobre filhos…

  1. Primo, sempre soube que o seu futuro seria diferente, você tem filhos sim, suas obras , seus trabalhos, você é um homem muito inteligente invejado pelos seus primos. Queria eu ter tido a coragem de encarar esse mundão do mesmo jeito que você encarnou, sendo diferente do que os outros . parabéns por esse momento seu e espero fazer sim parte disso.

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