Sobre leituras…

por Jackson S de Jesus

olharHorizonteEu gosto de ler palavras, aprendi cedo, com minha mãe; quatro anos… acho. Um caso raro, para a época. Até fui obrigado a ficar um ano fora da escola, só porque já sabia ler! Mas quem a vê hoje, uma jovem velhinha de corpo frágil e sorriso fácil, e que nunca se achou inteligente por ter apenas concluído o ginásio, não imagina a admiração e gratidão que por ela tenho, só por lembrar do fato, de ter sido com ela que aprendi a ler. Me doou o melhor presente: asas para voar, ver (ailes pour voler, voir).

Mas lembrando e lembrando bem, em verdade aprendi a ler antes disso. Quando vi minha mãe pela primeira vez (adotiva de coração), li naquele instante que ela ainda não queria ser minha mãe; estava escrito com todas as letras na sua cara! Mas nunca a culpei ou guardei mágoas por isso. Porque depois, ela acabou sendo (e ainda é) minha mãe de qualquer jeito. Ler é um pouco escutar o outro com o coração… acho. É sofrer e se alegrar juntos, compartilhar experiências. Minha definição pessoal e simples para a noção de literatura.

Talvez por isso até hoje tenho reservas (e me angustio) com George R. R. Martin, só para citar um exemplo; me pergunto de onde veio tantas experiências humanas…  Até hoje estou de luto pela morte de Ned, um homem estranhamente semelhante a um outro, que de vez em quando vejo no espelho pela manhã; lealdade vencida pelo mundo… e talvez por isso, a cada menção do seu nome, em capítulos já distantes de sua inesperada execução, meu coração dói como se a lembrança de sua morte viesse recente e com força a tona; brisa de lembrança triste que sopra o rosto a cada manhã…

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Ler pode até não ter a magia da escuta, o poder da voz e suas nuances e entonações, o calor da fogueira e os cheiros de milho assado, ou os contrates de luz e sombras em movimento, sobre os rostos de olhares brilhantes e atentos a cada sussurro ou silêncio de uma boa história contada; e a companhia de outras pessoas. Não. Ler não é como escutar uma boa história, ler é solitário. Mas também tem este mesmo poder, de transportar a gente para outros lugares, incríveis às vezes, desconhecidos e distantes talvez, outras épocas, com outras pessoas e suas experiências; e a solidão se perde no folhear das páginas. Ler nos transporta em espírito, nos faz viajar sem sair do lugar, uma das melhores formas de viajar; imaginação apenas. Por isso sou tão grato a minha mãe.

Mas então relembro que também aprendi a ler com meus avós. Mas desta vez não palavras, aprendi a ler os jeitos (e gestos) das pessoas; e o olhar também. Meu avô era, antes, considerado muito severo. Hoje, a idade parece o ter amolecido. Vejo isso nos seus movimentos, nos seus olhos, principalmente quando passo muito tempo sem o ver; o tempo parece amolecer a gente… Mas no início, com medo de levar broncas, fui obrigado a ser rápido nas leituras de seu jeito, seus gestos, sua postura, e principalmente seu olhar. Ah, aquele olhar… dizia tudo sem mencionar uma única palavra. Havia muita responsabilidade e força, segurança e justiça naquele olhar; olhar de consciência. Mas também havia compaixão e bondade. Talvez influência de minha avó, não sei, mas não tanta quanto a bondade do olhar dela; olhar de coração que transborda. Com ela, cada pedido era atendido (paçoca ou pirulito) e seguido de um olhar de alegria e generosidade. Cada bronca seguida de um olhar de consolo ou a direção de uma rota de fuga, para evitar uma provável surra. E depois, uma piscadela para confirmar um pacto secreto feito apenas… com o olhar.

Essas leituras me salvaram de um mundo escasso de orientações iniciais. Vi olhares de repreensão, sabia que deveria apenas me calar. Vi olhares de tristeza, sabia que deveria por hora me aquietar. Vi olhares de maldade, sabia que deveria realmente dali fugir. Vi olhares de desprezo e indiferença, sabia que naquele momento, não deveria mesmo chorar. E também vi olhares que na época eu não entendia, mas hoje sim; assim como vi olhares que até hoje não entendi… Mas também aprendi a não olhar, desviar o olhar, na verdade. A fingir que não via. Nesse mundo de contradições, às vezes é melhor fingir que não se sabe ver (nem ler). Mas se estou aqui hoje, onde estou, me relendo ao contrário e avesso (de dentro para fora) a partir do que escrevo, é só porque aprendi com a generosidade de outros, a ler, a ler o olhar, e enxergar o que às vezes por trás dele há; dizem que a alma, mas sinceramente não sei… mas posso imaginar.

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