Sobre (outras) possibilidades…

por Jackson S de Jesus

capitalismoRecentemente abandonei o Facebook (de novo e espero que pela última vez, já que eles demoram para apagar nossos dados…). Como ultimamente estou sendo abordado na rua por pessoas que me perguntam (de forma acusadora) por que eu as bloqueei ou as exclui daquela rede social (ainda que muitas destas usualmente e contraditoriamente não falavam comigo pessoalmente), neste post eu apresento brevemente os motivos de minha saída (e não desistência, exclusão ou bloqueio), pois, para a maioria das pessoas, estar des-co-nec-ta-do dessa rede parece algo impensável de se fazer (que otário, ou coisa pior…)! Mas o que ninguém nunca me perguntou até hoje foi: qual a sua rede social favorita? Indício de que a maioria também ignora a existência de outras possibilidades. Minha preferência é pelo mundo e software livre (do qual o Facebook não faz parte), mas tema deste post…

Acredito que não precisamos ser cientistas políticos para resumir de forma grosseira (mais ou menos) as atuais forças que regem o nosso mundo: competição e colaboração. Basicamente me parece que nós polarizamos nossas existências quase que exclusivamente em: relações de interesses baseadas em competição individual objetivando algum tipo de lucro (ufa, que frase longa) x relações de cooperação pautadas em solidariedade visando benefícios coletivos. Talvez ingenuamente, ainda acredito que enquanto seres humanos, temos uma inclinação natural para colaboração, mas o mundo (monstro) que criamos parece nos forçar sempre para o lado da competição. O mundo do software livre, que mencionei antes (o qual abarca minhas redes e programas favoritos), faz parte desta segunda perspectiva, a da solidariedade. Mas quando penso nessas questões, reconheço a força do primeira perspectiva, a da competição, e a imagem que me vem a mente é esta: somos pequenos vermes dentro da barriga de um grande monstro criado por nós mesmo, do qual não mais podemos nos livrar, ao menos não sob pena dele nos fazer perecer juntos. Porém, esta última parte pode ser só especulação de uma mente inadvertidamente intoxicada por excesso de açúcar e café…

Mas retornando ao assunto, reforço que no mundo da informática também existe (ou talvez replique) uma divisão semelhante, genericamente resumida (a grosso modo aqui neste post) sob os temos de mundo proprietário e mundo livre (e seus derivados: software ou código fechado, aberto…). Geralmente existe uma confusão histórica que associa código aberto com programas gratuitos e código fechado com programas pagos, mas não é intenção deste post explicar sobre isso. O que quero destacar aqui é, assim como no mundo real, no mundo virtual a maioria das pessoas também vive (ainda que sem saber), presas aos programas e aplicativos de código fechado, de grandes corporações como a Microsoft, o Facebook, dentre outras (a pirataria que o diga)… Daí nossa condição me parecer uma espécie de servidão moderna, aquela voluntária, porque não é por falta de opções livres, já que estas possibilidades estão hoje cada vez mais disponíveis; e como nunca estiveram antes. Só para citar um grande e atual exemplo, a própria Internet, parte da lógica do mundo livre (com a maior parte de seus protocolos abertos a todos), a despeito de nascer a partir de uma ideia governamental fechada, de controle e centralização, graças aos hackers (outra grande confusão histórica…), hoje está (ao menos por enquanto) associada as ideias de liberdade do mundo livre. Você já parou para pensar se a Internet fosse “regulada” por algum governo centralizado?

Eu sei que o Facebook, assim como o WhatsApp, são dessas ferramentas que fazem parte do mundo do código fechado, corporativo. Mas sem fazer julgamentos de valores, são apenas ferramentas (e excelentes se bem usadas), que atendem bem a seus objetivos propostos; assim como quaisquer outras (apesar que meu sentimento em relação ao Facebook ainda é dele ser usado aqui no Brasil, como uma versão mais agressiva do falecido Orkut). Porém, já faz algum tempo que faço uso de ferramentas do mundo livre que, além de igualmente atenderem (excelentemente) bem as minhas necessidades básicas de informática, por também me disponibilizarem o acesso aos seus códigos fontes (acessíveis para mim enquanto usuário programador), não apenas me permitem o benefício de pessoalmente poder estudá-los ou auditá-los se eu desejar, mas também, adaptá-los ainda mais as minhas necessidades e compartilhar solidariamente essas adaptações para toda a comunidade de usuários; pessoalmente um dos principais motivos de minha preferência (em verdade, um dos notáveis benefícios dos programas de código livre reside exatamente na velocidade de atualizações e correções de erros feitas pela comunidade de usuários destes mesmos programas, em contraste com a demora nos programas de código fechado).

Eu poderia citar aqui vários motivos ou desmotivos do uso de ferramentas de código fechado, a maioria relacionadas mais com orientações ideológicas, porém, destaco apenas aquela desvantagem que considero a mais sensível: as políticas de (que infligem a nossa) privacidade, cujas as quais (e a despeito de minha discordância e contragosto), eu até já as aceitei pelo período de tempo em que fazia uso destas redes. Você nunca desconfiou de mencionar um produto qualquer numa conversa privada no Facebook ou no WhatsApp e, horas depois (magicamente?) este mesmo produto aparecer na sua timeline ou pesquisa no Google, por exemplo?

Este é só um exemplo sobre esta delicada questão de privacidade que acima menciono ; existem diversos outros (e Snowden pode dizer mais a respeito)… Mas alguém pode objetar: ah, eu não tenho nada a esconder. Ao qual eu replico: nem eu, tanto que voluntariamente me exponho aqui no meiotexto (mais do que gostaria, inclusive). Mas, grande diferença, faço isso de forma voluntária e consciente; e não sem o meu próprio conhecimento ou permissão (apesar que desconfio que a NSA, só porque mencionei o nome dela e o de Snowden no mesmo parágrafo, passará a ficar de olhos nas minhas postagens, rs). Liberdade total é pré-requisito básico (de base) no mundo livre, e como pessoalmente aprecio esta ideia (e quem não aprecia, rs), não abro mão dessa característica.

É só por isso que não uso (ou não gostava de usar) o Facebook e o WhatsApp, e ainda que minhas justificativas (talvez) não sejam boas o suficientes para sustentar meus argumentos de não uso dessas ferramentas, (para mudar de assunto) respondo aqui qual é a minha rede social favorita: o próprio WordPress! Exatamente. Pode não parecer, mas aqui onde você está lendo este post é uma rede social de blogueiros, que curtem, comentam e também compartilham suas publicações, da mesma forma que você costuma fazer lá no Facebook; a diferença significativa é que aqui, o item principal da interação são textos (geralmente posts longos e chatos como este). E também existem outras redes que (aposto não ouviram falar e) eu curto bastante, como a Redmatrix, a Diaspora, a GnuSocial, a Identi.ca, o Actor messenger (substituto aberto do WhatsApp)… lembrando que existem muitas e muitas outras variadas opções (para começar uma busca a respeito, por exemplo, recomendo o Duck Duck Go, no lugar do Google; o Debian no lugar do Windows como sistema operacional, não, aí eu exagerei, rs). O bom é ter opções livres e liberdade (ainda que talvez ilusoriamente) para escolher.

É isso, mesmo supondo que poucos vão procurar se informar a respeito dessas ferramentas, respeito a decisão de cada um em relação aos seus usos e escolhas, da mesma forma que gostaria de ser respeitado, porque sei que essas mesmas escolhas são geralmente pautadas em critérios objetivos e subjetivos. Objetivamente posso dizer que prefiro estas ferramentas porque (como disse antes e nunca me repito) elas realmente atendem as minhas necessidades básicas de comunicação. E subjetivamente, apesar de ter consciência de que nenhum de nós precisa realmente saber sobre programação (já que se é perfeitamente possível dirigir bem um carro, mesmo não sabendo nada sobre mecânica), tendo acesso ao código fonte (enquanto programador) das ferramentas de código aberto, eu também tenho a sensação de que possuo algum controle efetivo (auditoria) sobre estas mesmas ferramentas (talvez ilusória), dentre outras vantagens; a despeito de uma possível realidade contrária.

Se chegou até aqui, agradeço a leitura (e paciência) e advirto que o mais provável, é que eu também seja apenas mais um dos vermes na barriga do monstro acima citado, mas um verme dos rebeldes (consciente de minha condição de verme, “vermitude”?). Talvez tanto quanto alguns de meus grandes amigos, aqueles que estão fora dessas redes, mas (inacreditável), a despeito da crença popular (principalmente a dos usuários do Facebook), eles ainda existem (aqui fora, no mundo real)!

Assim com no mundo livre, aproveitando as melhores práticas (neste caso aquelas que não envolvem objetos cortantes, ossos quebrados e sangue) de outro possível “verme”, William Wallace, mas que deu muitas dores de barriga ao malvado rei Dudu (Eduardo I), finalizo este post com (segundo a lenda) seu último marcante e rebelde suspiro: Liiiibeeeeerdaaaaadeeeee!

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