penhascoUma vez caí de uma grande escada (na verdade fui empurrado mesmo, mas isso não vem ao caso…), e quando finalmente cheguei ao final desta minha primeira “grande queda” (pareceu demorar horas), tonto que estava, senti aquele prolongado zumbido agudo de dor de cabeça, aquele gosto morno de sangue enferrujado na boca, aquela dor de músculos machucados, aquela ardência caustica de pele arranhada e rigidez de ossos trincados, mas, ainda assim, conseguir me levantar (me arrastar) até a cama de colchão macio dos meus pais. Eles não estavam em casa para me ajudar (ou reclamar, consolar…), então, só me restou ficar ali deitado por um bom tempo, sem me movimentar, chorado da dor de até respirar, porém, dizia para mim mesmo que não estava doendo… mas, inferno, como doía! Depois de algum tempo, eu percebi que de grave mesmo, só tinha desmentido um tornozelo, um pulso e alguns dedos das mãos, e só por isso demorei um bom tempo para não andar torto e não sentir o incômodo daquelas dores no meu corpo. Marcas daquela queda…

Numa das histórias que escrevi sobre o menino que nunca dormia, ele também cai, mas num chão de terra fofa e amortecido por um farto colchão de folhas úmidas; num contexto de brincadeira, depois de subir num pé de seriguela durante outra queda, mas, desta vez, a da chuva. Na sua queda mesmo, além de não sentir nenhuma dor e nem ter partido ou quebrado nada, de quebra mesmo, ele ainda tem uma epifania que o ajuda a compreender sobre a natureza de seu nome, o menino que nunca dormia; marcas de sua queda…

Eu fico publicamente feliz de ter escrito sobre a queda do menino que nunca dormia, antes de ter lido sobre a queda de Bran (assim não sou injustamente acusado de plágio), uma personagem que aparece logo no primeiro livro, A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Na sua queda, o pequeno e carismático garoto é (também) deliberadamente empurrado, mas de uma altura bem maior, e as consequências para ele são bem mais graves: além de perder a memória e a consciência por um bom tempo, ele também perde o movimento das pernas, depois de retornar (em sua cama) da prisão deste prolongado e profundo sono; no final, torna-se definitivamente um inválido, marca para toda a sua vida…

Atualmente escrevo sobre quedas, a partir de uma perspectiva próxima a do pequeno Bran, porque recentemente percebi, que não são apenas as quedas físicas que deixam marcas ou nos tornam inválidos. Eu sei porque caí novamente… e desta vez (descuido único de minha parte, distraído que estava no caminho, não prestei atenção a minha companhia, nem aos detalhes do abismo que eu seguia, e que dela me afastavam…), assim como o pequeno Bran, que agora olha pela janela de seu quarto todas as coisas que os outros garotos de sua idade podem fazer (e que ele não mais poderá), com tristeza também vejo pela janela de meu olhar, as coisas que sinto agora, não mais poder experimentar. O mundo mudou. Fraturas emocionais que deixam marcas; que nos tornam inválidos emocionais.

Escrevo desta forma, no plural, porque depois desta última (espero)  queda, agora também enxergo (ou apenas suponho ser capaz de enxergar) algo que não conseguia sequer antes imaginar (talvez meu aprendizado): as outras pessoas que também já caíram; e o porquê delas “mancarem” pelo mundo. Percebo agora que a minha ó-tão-dolorida-e-importante-grande-queda (como divertidamente leio um dos meus escritores favoritos escrever, Alex Castro), na verdade não foi assim tão única e exclusiva; todos os dias alguém cai lá fora, em algum lugar. Por isso acredito (ou tenho a presunção de) ser capaz de reconhecer na rua essas outras pessoas, também gravemente machucadas e por vezes também inválidas, por suas quedas emocionais; com suas marcas invisíveis que só quem também já caiu (talvez, não sei…), seja capaz de enxergar.

Ainda não sei o que fazer (talvez por isso escreva, para juntar meus pedaços quebrados, para confessar meus pecados, para compartilhar essa experiência afim que você que agora lê, ao menos saiba de sua existência e, não se permita cair), e assim como o pequeno Bran, sofro com impossibilidades que agora só posso apenas observar; inválido que estou a partir da minha própria janela. Mas também acredito que agora, por me sentir assim aleijado (triste, fraco, sem estima e confiança, abandonado…), provavelmente também não mais poderei cair; ao menos não como antes (grande consolo). E assim, como a maioria das muitas pessoas que também já caíram, que de um modo ou de outro conseguem mancar neste mundo; também eu arranjarei meus “apoios”, ainda que sob olhares piedosos (ou acusadores) daqueles que não caíram e não conhecem nem os caminhos nem as dores da queda. Farei isto mesmo que o mundo continue este lugar, difícil de se adaptar…

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Um comentário sobre “Sobre quedas…

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