principe

O pequeno príncipe foi um dos primeiros livros que tive acesso quando criança, e (apesar de fisicamente não ser mais uma) ainda permanece sendo um dos meus favoritos (inclusive, esta é uma das grandes lições desta obra: lembrar aos adultos, daquelas crianças que eles já foram um dia..). No tempo em que fui “obrigado” a lê-lo (na escola, eu fingia que não gostava de estudar para não parecer um estudante chato, mas em casa…), fiquei feliz de ver sua espessura (fininho) e assim que abri aquelas páginas, também impressionado de saber que o criador daqueles desenhos fora o próprio autor do texto, (ele que dizia não saber desenhar, mas tinha feito aqueles desenhos, me dava esperanças, porque também eu não sabia, mas igualmente gostava); nunca tive notícias de um livro feito assim até aquele momento. Também tenho orgulho de lembrar que quando vi o seu desenho número um, vi tudo, menos um chapéu; mas suspeito que o mesmo desenho que inspirou e também impressionou o autor (o da jiboia engolindo a fera), tenha fortemente me induzido a chegar na pista certa sobre o seu desenho número um (eu já lia com o coração naquela época)…

Mas demorei literalmente anos para terminar de lê-lo (no final da década de 90, acho, para ser mais exato, rs), simplesmente porque logo em algum momento desse passado inicial (depois de já ter lido avidamente algumas páginas, e gostado), achei de dar um salto nas páginas seguintes (grappiller, a arte, condenada por alguns, de saltar páginas; segundo Daniel Pennac, o oitavo direito imprescritível do leitor, em sua obra, Comme un roman, Como um romance) para ver os outros desenhos que tanto me agradaram. Triste decisão. Sem querer, abri exatamente na pagina onde vi o pequeno príncipe tombando (o poder da sugestão…), meu amigo parecia morrer… demorei para acreditar naquele desenho (toda a história lida até aquele momento se passou rapidamente em minha cabeça)… e nunca me doeu tanto ver uma simples imagem. Então, com raiva, deixei o livro de lado e como não tinha ninguém para conversar sobre, por muitos anos, não mais cheguei perto daquelas páginas; triste pela visão daquele simples desenho (ainda estou assim em relação ao livro Eu sou a lenda, de Richard Matheson; apesar que este já foi totalmente lido, e de um único fôlego de uma tarde!)…

***

Recentemente assisti (junto com Pipi,  o pequeno príncipe de nossa casa) a animação o Pequeno príncipe, de 2015. Pessoalmente diria que o filme é uma excelente obra prima (baseada em outra prima obra de excelência). Gostei de tudo, da história (que evidencia o grande contraste entre o mundo infanto juvenil e adulto), da trilha sonora (tema deste post…), do fato de, apesar do título, a personagem principal do filme ser uma garotinha bem simpática, determinada e que não conhecia a obra (e, pequeno spoiler, que salva o pequeno príncipe!); mas gostei principalmente da ideia da animação dar uma continuidade (na minha opinião excelente) para a história que termina no livro. E assim como para a personagem principal, também apresentar a obra escrita (a partir do cinema) para aqueles que ainda não a conhecem (nenhum de meus estudantes do 7° ano e só alguns do 8° e 9° anos conheciam o livro)…

Em resumo, recomendo fortemente, o filme é lindo, leve e emocionalmente tocante (volta e meia meu sobrinho, com cara de choro, e com a sinceridade que só as crianças parecem possuir, dizia: “poxa tio, dá uma vontade de chorar…” o qual eu tentando racionalizar, replicava: “então funcionou Pipi, porque é justamente esta a ideia” (olha aí a razão tentando ganhar de novo, uma briga por ela inventada e da qual a emoção nunca quis participar…), e no final, tive que abraçá-lo por alguns minutos, porque ele não conseguiu se conter; e na verdade, me escondendo por trás daquele abraço amigo, nem eu…).

***

Abaixo, apresento a versão francesa (melhor que a inglesa, rs) da letra [com tradução (e interpretação pessoal)] da música Equation (nome bastante sugestivo) que faz parte da (também excelente) trilha sonora do filme. Esta música combina, de forma intrigante, pausas e silêncios, construindo um ritmo melódico (a partir dos sons do tique-taque do relógio) que parece nos mostrar a influência do tempo em nossas subjetividades e emoções; e também  replica (de forma poética e original), através do belo sussurro da voz da cantora (criando uma sensação acústica de melancolia), o jogo de ideias entre linguagem matemática e linguagem literária (francês no caso), ou, dito e outra forma, a música sugere o mesmo grande contraste apresentado no filme: razão versus emoção.

Link para o vídeo no Youtube aqui.

Equation, Camille & Hans Zimmer
1 plus 1 font 2 [1 mais 1 são 2, (pai e mãe)]
2 plus 1 fait 3 [2 mais 1 são 3, (pai, mãe e filha)]
3 moins 1 sous le M toit [3 menos 1 sob a proteção do M (imagino que este M se refira a letra M de mãe, ou seja, a partir da ausência do pai, a mãe cuida da família)]Tu me dis racine [Você me diz raiz (família, base familiar)]
Les larmes ou la pluie [as lágrimas ou a chuva]
Fait chavirer les nuages [faz virar as nuvens (deixam cair, afastam as tristezas)]

Et si le soleil [e si o sol (a alegria, a presença do pai)]
Descendra du ciel [descer do céu]
Lundi, [segunda-feira]
Dans une heure, [em uma hora]
Une vie, [uma vida]
Une semaine, [uma semana]
Une semaine et demie, [uma semana e meia]
Une année, [um ano]
Un million d’années, [um milhão de anos (gradação temporal que sugere o desejo da permanência dessa alegria, da presença do pai)]

Un peu loin des yeux [um pouco longe do olhar]
Plus tout près de toi [mais bem perto de você (o pai)]
Je ne compte que sur mes doigts [eu só conto com meus dedos (para contar o tempo, da distância ou esperança do retorno e presença)]

Si par coeur brisé [se de coração partido]
Je n’ai que des A [eu só tenho A (por consolo, eu só consigo boas notas)]
Est-ce que tu reviens, Papa? [será que você vai voltar, papai (nesta última parte, há um interessante jogo de palavras com a ideia de negação, criada a partir da pausa (silêncio) intencional durante a pronúncia da palavra papai; isso porque em francês, a pronúncia da palavra “não” (pas) é igual a pronúncia da primeira sílaba da palavra “papa” (papai em português). Em resumo, a tradução seria assim: Será que você vai voltar… não, mas então a segunda sílaba é pronunciada, e o não se transforma em pai; a ausência se transforma em presença)].

***

Esperançoso, não? E se eu confessar que só escrevi este post (inteiro!) por causa desta última frase, rs… por isso lembro, assim como a gente cria (visualiza sem querer imagens) quando lê um poema, tudo que foi dito sobre a interpretação da letra desta música não passa de construções de sentidos pessoais (talvez não correspondendo com a realidade dos autores da música), da qual apenas este que escreve é inteiramente (ir)responsável…

 

Se gostou (ou não), encontrou algum erro ou informação equivocada, tem alguma crítica… comente! Nada alegra mais um autor do que a interação com seus leitores (quando eles existem, claro, talvez não seja o caso do meiotexto…)
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3 comentários sobre “Sobre razão versus emoção…

  1. Eu gostei! O pequeno sempre foi adorado por mim. Adulta (será?) estive em contato esporadicamente, mas cativa como me encontro hoje, voltou a orbitar meu pensamento e minhas impressões. Minha escrita é também extensa, para, muitas vezes, chegar ao pensamento core: o que expresso “na última frase”. Bonito.

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