Sobre profissões de risco: professor (casos curiosos)…

por Jackson S de Jesus

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Era quase meia-noite de uma terça-feira quente e úmida num bairro periférico da cidade de Salvador. Eu voltava para casa e tinha dois caminhos a seguir: um rápido e potencialmente perigoso e outro longo e provavelmente tranquilo (o que é o mesmo que menos perigoso). As advertências contrárias e a vontade apressada de chegar em casa, somada com a preocupação da aula na manhã seguinte me empurraram para a primeira opção. Na minha avaliação (de quem não tem nenhum juízo) levar uns tapas ou umas coronhadas (acreditava que ninguém gastaria uma bala com alguém que não teria nada a oferecer) compensaria o fato de chegar mais rápido em casa. Então, lá fui eu seguindo minha primeira e arrisca opção, torcendo para que minhas previsões não ocorressem…

Mas, no meio do caminho havia uma pedra (não a do poema), mas uma de crack mesmo (várias na verdade), e eu avistei um grupo de usuários que já haviam me avistado; tarde demais para voltar (sem o risco de ser perseguido). Assim como a chuva cai depois de um céu nublado, da mesma forma fui “enquadrado” pelo grupo em questão: “Perdido na quebrada branquelo?” Apesar de morar na mesma localidade a muito tempo, nunca pensei numa estratégia qualquer para lidar com abordagens de meus vizinhos de quebrada…

Antes que eu abrisse a boca para dar as minhas desculpas de sempre, uma bola cai do céu (literalmente) bem na frente de meus pés! Não sei se fui o único a me perguntar como e por que aquela bola acabara de cair ali, naquele exato momento… Um portão se abre e um garotinho de seus 7 anos vem em busca de sua bola perdida. Ele para bem em frente a mim (se posicionado desta forma entre eu e o grupo de usuários) e diz com todo o ar de surpresa que seus pequenos pulmões poderiam emitir: Professoooor!? “Oi”, eu respondo automática e alegremente, “que fazes tu aqui uma hora dessas”, pergunto. “Eu moro aqui nesta casa, estava jogando bola, ela pulou.” “Legal”, penso em voz alta, enquanto esqueço completamente do perigo anterior na tentativa de lembrar o nome daquele pequeno estudante (e naquele momento, sem me dar conta, salvador)…

Então, antes que eu conseguisse lembrar, ele já havia pegado a sua bola (tchau professor!) e entrado para a segurança de sua casa, me deixando com meus pensamentos (logo interrompidos) mais uma vez solitário na companhia dos viciados. “Você é professor é?” Pergunta um dos usuários do grupo. “Sou”, a única resposta sincera que me vem a mente e sai pela minha boca. “Adiante então, vá!” “Sim senhor Senhor”, penso mudo me dirigindo grato ao Criador, enquanto o grupo volta a se concentrar em suas atividades de consumo, ao mesmo tempo em que ignoram completamente a minha existência. Naquele dia eu cheguei bem em casa…

Ser professor é uma das maiores contradições deste país (mais isso é mote para outro post), e esta não foi a última vez que dei sorte (e sei de outros colegas) por ser um…

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