A alegria não está nas coisas: está em nós.
Goethe.

Antes mesmo de começar minha vida acadêmica, eu já era considerado o chorão da família (o que me rendeu, na época detestável, o apelido de zé manteiga): antes de entrar na escola, eu chorava porque queria entrar, depois que entrei, porque queria sair; é sempre assim (a inconformidade parece ser nossa marca)…

Selecionando alguns casos para cada ano, na primeira série chorei porque tinha uma garota valentona (isso mesmo, uma garota) que batia em todo mundo (e obviamente ela também bateu em mim… pois é, apanhei de uma menina, e daí?); na segunda série chorei porque levava bolo (e não era o de comer, pois naquela época, a primeira vara da infância e da juventude era um eficiente cipó de araçá!) nas sabatinas de sextas-feiras (ainda não sei por que não fiquei traumatizado em matemática, mas pensando bem, saber a tabuada de cor ainda tem sua utilidade); na terceira série, chorei porque a menina que eu gostava me deu um sonoro e público NÃO (depois que ela descobriu que era minha namorada, e isso dói até hoje); na quarta série porque eu não queria sair da minha escola de sempre e ir para outra (tememos o desconhecido); na quinta porque esmaguei (sem querer, claro) os dedinhos de meu amigo na porta do banheiro; na sexta (ufa!) porque quase perdi de ano (era frequentador assíduo da sala da diretora)… Da sétima até a oitava série, minhas lembranças acadêmicas se tornaram quase como água: transparentes (inodoras e insípidas também e sinceramente não sei explicar os motivos), até que um belo dia (depois de quatro anos consecutivos de repetência no ensino médio, tema para outro post) eu finalmente parei de chorar: abandonei a escola!

***

Um dia, já como professor (na primeira escola que trabalhei e onde conheci a turma do abraço), uma amiga nossa fazia aniversário e outro amigo me pediu (na correria do intervalo) para eu imprimir a palavra “Parabéns”, ao lado do nome dela numa folha de papel colorida. Nessa época eu já não chorava mais, tinha aprendido a disfarçar (reprimir) muitos sentimentos, incluindo mesmo (e principalmente) a alegria. Então, mesmo contra minha vontade (pois não acreditava que nossa amiga gostaria do simples “presente”) fiz o que ele me pediu como se fosse um outro pedido qualquer.

Para a minha grande (e estupida) surpresa, ela não apenas gostou muito daquele papel com seu nome impresso (e os votos de felicidades escritos por nossos colegas), como também nos confessou (aos prantos) que aquele foi um dos melhores presentes que já havia recebido na vida; porque, segundo ela, era um presente simples e sincero (havia mesmo era sinceridade no choro de alegria dela). Enquanto nossa amiga se derretia, meu amigo me olhou de relance e riu (miserável, pensei), eu nem acreditava que tinha feito parte daquela coisa, naquele momento, inexplicável. Naquele dia (além de mais uma vez ter que disfarçar o nó na minha garganta) aprendi que as coisas aparentemente simples para nós (não os nós de garganta, rs), podem fazer bastante diferença para outros; cada uma de nossas ações tem um significado (às vezes especial) para outras pessoas. Por isso, ainda hoje agradeço muito ao meu amigo pela grande lição daquele dia (acredito que esse tipo de aprendizagem está presente em nossas vidas até o fim dela; apenas uma questão de percepção, que nem sempre estamos dispostos).

***

Eu sei que recentemente, novamente senti minha garganta apertada com aquele mesmo tipo de nó (ao qual secretamente chamo de “nó da forca feliz”), mas mantive bem (apesar do esforço quase sacrifício) o disfarce. Eu não queria ser o único (chorão) a estragar a festa que “certos” estudantes (“miseráveis”) fizeram para nós, professores do cursinho pré vestibular. Assim como minha amiga aniversariante, foi a primeira vez na vida que tive a surpresa alegria (e que alegria surpresa) de ter uma festa feita para a equipe de professores da qual faço parte. Fiquei com raiva e feliz ao mesmo tempo (pois além de me sentir enganado, também me senti aquela criança de antes que acreditava (triste e feliz ilusão) já não mais existir em mim… (na hora lembrei de outro amigo meu que educadamente diz: “Rebanho de felas da pota!”, se eu pudesse me vingar, rs)…

Mas, na verdade, não quero me vingar de nada (e de ninguém), antes, apenas agradecer de coração a turma do Colégio Modelo de 2016 do cursinho pré vestibular Universidade Para Todos (ufa), não apenas pela festa surpresa, a homenagem e (principalmente) o reconhecimento de nosso trabalho enquanto professores, mas também por nos lembrar (a mim pessoalmente) que as melhores coisas da vida estão nas experiências humanas mais simples!

Muito obrigado.

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6 comentários sobre “Sobre profissões de risco: professor (reconhecimento)…

    1. Olá Jorge, agradeço a indicação (eu gosto de responder tags), mas vou declinar desta porque ela tem um caráter competitivo (ainda que de leve), algo que não me motiva (de jeito nenhum) a escrever. De um modo ou de outro, um grande abraço!

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