O galo Bicudo…

por Jackson S de Jesus

Enquanto isso, o menino que nunca dormia
se distraía com uma nuvem em forma de galinha, que aos poucos se desfazia (…) e que logo o fez lembrar (como um leve susto) do galo Bicudo.

Bicudo era um galo velho, gordo, branco e sujo (e rabugento) que ciscava e dominava toda a floresta esquecida, com sua coroa de crista torta e bastante vermelha. Bicudo perseguia a todos quando tinha alguma oportunidade, ou seja, quase sempre! Não fosse o vermelho beterraba de sua grande crista torta, que o denunciava com muita evidência entre o verde e marrom das bananeiras, ou a repentina movimentação de fuga dos primos irmãos atentos, seguida de gritos desesperados de: “Lá vem Bicudo! Lá vem Bicudo!”; teria ele beliscado mais vezes o menino que nunca dormia…

Mas um dia, o menino que nunca dormia, esquecido de sempre do perigo infligido pelo galo perseguidor, percebeu (com outro susto, agora diferente, do tipo vertigem) que a floresta esquecida estava estranhamente calma… e (pasmo) vazia! Sentiu um inexplicável aperto no peito, talvez pressentindo o pior, que logo se confirmaria. Soube que o pai avô mandara embora o galo Bicudo, e para onde, nunca soube (naquele tempo)… E apesar de sempre sentir medo de sua presença (e suas bicadas doloridas), pela primeira vez, também sentiu sua falta, e a impotência de não poder fazer nada…

Então, olhando para a nuvem que se desmanchava (assim como seu coração), tentou rabiscar no chão, um desenho do galo Bicudo, mas uns ciscos de sal que coçavam seus olhos (e um abraço triste que apertava o seu peito) de jeito nenhum o deixava ; só queria um desenho para tentar guardar nas suas memórias de água, as lembranças que a floresta esquecida sempre l(a)evava…

Trecho da coleção de contos inacabados do menino que nunca dormia…

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