Sobre notas do fim do mundo (na verdade, só do semestre mesmo)…

Como bem devem saber, atualmente estou em Recife (fisicamente, ao menos), mas pela primeira vez aqui (neste lugar de antigas alegrias), me sinto deprimido (assim como metade do mundo); mas estou levando (assim como metade…). Minha tristeza advém do fato de NÃO estar onde e como eu gostaria (assim como metade…). Tenho a impressão de estar preso nos filmes do homem-aranha, rodando e rodando sem sair do lugar, mas sem o freelance do planeta Clarim Diário e a Mary Jane (num loop infinito, meu purgatório ou samsara…). Mas pelo menos, suponho estar aprendendo muito com tudo isso (acho)…

Quando saí de onde estava, o principal motivo foi porque meu curso estava parado (para mim pelo menos e havia já dois anos!). E apesar de ter um bom emprego como professor, eu precisava (ainda preciso) de minha formação para continuar e legitimar minha atividade (e cuidar eu mesmo de minha vida). Então (por ter perdido emprego, dentre outras coisas) vim para cá. Me matriculei no mesmo curso (na federal) e pedi aproveitamento de disciplinas. Ainda aguardo o resultado, mas estou gostando muito (apesar da sensação de deslocamento). Enquanto isso, aprendi muitas coisas interessantes (que provavelmente não aprenderia lá), incluindo tópicos de psicologia, literatura e grego clássico (estudando ainda). Pausa para divagação: sentir novamente a mesma sensação de quando eu era criança e entendi pela primeira vez a lógica da associação das palavras como representação das coisas… não tenho palavras para descrever! Suspeito que sou um professor razoável e gosto de ensinar porque justamente, gosto de aprender e não tenho medo de errar (apesar de sentir que tenho errado muito ultimamente). Fim da divagação. E de quebra, ainda passei nas disciplinas que peguei no semestre, exceto uma, por falta (incluindo de escuta); além de fazer boas amizades…

Quando vim para cá, meu melhor amigo me questionou (não apenas retoricamente) se eu era um idiota (vir para cá só para terminar um curso) e como ele é meu melhor amigo, ponderei sobre suas palavras… e pensei: provavelmente sou mesmo um idiota… mas não por este motivo (talvez por outros), eu só quero terminar este curso… não me parece algo assim tão estúpido ou tão excepcional (eu já tinha desistido de ser astronauta da NASA, mágico de circo, lutador de MMA, piloto de fórmula Truck, mergulhador de fossas abissais, arqueólogo na Mesopotâmia, maestro de sinfônica, agente da CIA, presidente do Brasil [mas por voto, é claro e não por um golpe], a lista continua…) e até demorei para perceber que ser professor se encaixa nas minhas ha(de)bilidades (vocação ou maldição). Mas entendo esse amigo (ele não queria perder minha companhia e na verdade, nem eu a dele); ele pode reclamar da vida (e realmente reclama), mas ele já tem isso que eu ainda não tenho e busco: uma simples formação (e por tabela uma vida mais ou menos organizada). E só por isso eu concordo com ele: na perspectiva deste mundo, posso ter um pouco de erudição, mas estou longe de ser inteligente (admitindo em outras palavras, sou um idiota)!

De qualquer modo, ensinar (ser professor) parece pouco para muitos, mas para mim parece… fundamental. Desde cedo eu percebi que preciso (precisamos) de pouco para viver bem e, fazer o que se gosta é algo importante desse pouco; mas nem isso pareço ter agora. Eu poderia cozinhar, fazer cerveja artesanal, programar jogos e sites, consertar computadores, escrever profissionalmente (ou até mesmo trabalhar na construção civil), dentre outras atividades, mas ensinar me parece a mais “legal” de todas”! Por sorte tenho amigos e o ditado é certo (quem tem amigos não precisa de dinheiro) e só estou aqui graças a eles, a quem agradeço (minha mãe está nesta lista, quando me parece que deveria ser ela, a estar na minha lista do fim de mês)…

Querendo ou não, tenho que limitar ainda mais as minhas vontades (além das reais necessidades). Digo isso porque recentemente me ofereceram uma caneca de cerveja, mas não a encheram como fizeram com as demais e minha leitura foi “olha, você é legal, mas não pode pagar, então aceita esse pouco que lhe é dado e… vai embora.”. Aceitei, mas o gosto não era o mesmo da lembrança da amizade de onde eu vim (e isso dói). Por isso não me julgue mal ou antissocial se eu não aceitar mais canecas de cerveja pela metade, ou me negar a sair, ou qualquer outra coisas que dependa de dinheiro. Tenho muito pouco orgulho, mas só um pouquinho mais de percepção…

Na verdade mesmo, hoje eu não tenho quase nada de valor (algo subjetivo) material, porque antes de vir, doei tudo que tinha para pessoas amigas que na minha avaliação fariam bom uso delas; fiquei apenas com meu kindle e alguns poucos livros presenteados. Mas não me sinto vazio por isso. Estou vazio como aquela caneca de cerveja porque, dentre outras coisas, sinto que estou envelhecendo (algo aceitável e natural), mas ainda distante de conseguir o mínimo que planejei para mim. E isso interfere em todos os outros aspectos de minha vida… incluindo a escrita, que é outra atividade que me proporciona alegria. Mas hoje, como podem ler, não é o caso; escrevi este texto com uma dificuldade que geralmente não tenho. Porque hoje me sinto um fracassado assumido e perdoem se minhas ações (escrita) refletem esse mal-estar. Mas tenho fé que passe. Enquanto isso, continuo lendo muito (e as desgraças que acometem os personagens das crônicas de gelo e fogo me ajudam a perceber que até tenho uma vida boa), vivo do jeito que construí minha vida (até aqui e mesmo sem saber) e escrevo mal (em todos os sentidos)…

PS. Recentemente recebi uma mensagem de texto recusado, quando li o título do e-mail, imaginei logo que fosse aquela minha submissão para escrever no Obvious. Mas era um recusa bem mais antiga, de um site onde submeti um texto a muito tempo, tanto que nem sofri pela rejeição. Relendo hoje (aquele texto enviado) pensei que até eu mesmo o teria recusado. Já sobre o Obvious, me pergunto se receberei outra recusa depois de muito tempo também… de qualquer modo, e apesar de minha vontade de escrever lá, como derrotado que já estou, também já me sinto confortável em aceitar mais esta derrota; às vezes a vida parece ser um mar revolto de recusas; nossas e dos outros…